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CONTOS VENCEDORES DO I CONCURSO DE FICÇÃO RELÂMPAGO



Contos Vencedores do I Concurso de Ficção Relâmpago

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VENCEDOR: Fins de Janeiro – Bruno Müller

As batidas do monjolo marcavam o tempo que resistia em passar, naqueles dias modorrentos de janeiro. A velha, sozinha, bordava em sua cadeira, acompanhando os murmúrios  do moinho na água e os baques da madeira nos grãos. Seu casebre, perto de uma das colunas das grandes construções, só não era esquecido naquela imensidão pois ficava na beira da estrada, e muitos batiam à sua porta pedindo ora informação, ora conselhos, ambos servidos com café.

Baque. Ela já havia se acostumado, ainda que fosse por vezes tomada pela tristeza, contagiada pelos que passavam por ali. À noite, as pancadas conduziam o passar das horas, que durante o dia era medido pela luz do sol que refletia nos muitos vidros coloridos, espalhados pela casa.

As pontes impossivelmente altas cruzavam os ares, as longas colunas de suas fundações perfurando a terra e se elevando como enormes espinhas de peixe. Todos os caminhos que cortavam o céu, ignorantes da cabana da velha a seus pés, encontravam-se no topo daquele morro de pedra, lá longe, onde ficava a mais alta das cidades. Suas muralhas cor de cobre, encarapitadas umas sobre as outras, eram da mesma cor dos parapeitos que voavam sobre o vale.

Fora algum ancestral da mulher que, desistindo da vida naquela cidade triste e distante, havia limpado e cercado aquele pedaço de terra. Talvez o mesmo antepassado tenha feito o engenho e o monjolo que estalava, transformando milho em farinha.

Outra pancada. Era aquele som que a mantinha sem medo, mesmo vivendo sozinha, enquanto via as pessoas caminhando lá no alto. Não sabia mais quanto tempo lhe restava, e mesmo tendo saído poucas vezes da sua casinha, não se arrependia da vida que tivera. Era tranquila. Solitária, mas tranquila. Talvez isso ajudasse os que vinham em busca de seu conselho.

Os mercadores e viajantes, que entravam e saíam da cidade, faziam muitos caminhos pelas pontes altas, por escadas que desciam as colunas enormes, por estradas de tijolo e terra que costuravam o vale verde como uma grande colcha. As batidas à porta da velha somavam-se às dos fundos da casa.

Da cidade distante só tinha uma memória ainda mais longínqua, de quando era menina e visitara uma casa de vidros com a mãe. Frascos, vasos de flor cristalinos. A memória era triste, e foi sempre assim que se lembrou daquele lugar e daquelas pessoas.

Naqueles dias de verão era mais comum baterem à sua porta, quase todos os dias. Homens e mulheres, oficiais de alta patente, mães, pais, irmãos e irmãs. Filhos e filhas. Choravam. Ela servia café e os acalentava, iluminada pelos vidros da mãe.

Lá fora, outra batida.

Pela janela de sua cozinha, conseguia ver os telhados vermelhos da cidade, lá longe. As árvores frondosas, com suas folhas e flores cor de sangue, as pétalas carregadas pelo vento até o fundo do vale. Também via uma ou duas pontes, mas não a que fora construída sobre o seu teto. Não o parapeito de onde saltavam para a morte em seu quintal.

MENÇÃO HONROSA: Pequenas Vitórias – Maisa Fonseca

A coisa boa de uma infestação zumbi urbana é que é fácil de lidar. A gente cria um perímetro e monitora com câmeras de trânsito. Evacua, daí é simples: ninguém entra, ninguém sai. Depois a gente observa por uns meses, limpa tudo e devolve pra população.

É um trabalho chato, mas alguém tem que fazer né?

Senta aí antes de assinar, deixa eu te dar um conselho. Não fica monitorando as câmeras. É o pior trabalho. Você vai ter que tomar decisões difíceis.

A coisa fica complicada depois da evacuação, sabe… Quando a galera que ficou… Bom, quando a galera que ficou dá seu jeito.

O vírus é uma merda. Você apodrece antes de perder a consciência. Às vezes temos que matar zumbis extremamente eloquentes, que, nossa senhora, são inclusive pessoas maravilhosas, mas tem que matar, né? Ficou no perímetro, não pode sair.

Eu não devia contar essa história, mas vou contar, aí tu decide se vai alistar. Eu tava nas câmeras, naquela infestação que pegou o rio de Janeiro todo, faz uns cinco anos. Lembra? Tinha um posto de perímetro bem nos Arcos da Lapa.

Lá pelo quadragésimo dia, eu vi um vulto de cabelo comprido e bem esfarrapado, vindo lá das bandas da Central, carregando alguma coisa… Bem podre, não dava nem pra saber o que era, sabe como é?

O vulto veio se embrenhando pelo Centro, arrastando os pés, bem devagar. Zumbi anda devagar por que o músculo não regenera mais, né?

O louco era que esse aí era extremamente esperto. Só andava de manhã cedo e durante a tarde, depois do calor passar… Batia umas oito da noite, o bicho sumia até de manhãzinha.

Me apeguei. Curiosidade, manja? Eu só queria que aquele lá conseguisse descansar em paz, sabe?

Acabou que o bicho veio numa carreira na Mem de Sá, pra cima da gente. O zumbi veio chegando, olhando pra trás as vezes. Devia ter visto algo pior que ele. Algo mais assustador.

À uns vinte metros da barricada, um tiro só. Pum! No ombro. O bicho urrou… Barulho feio, do fundo da cova, aí arrastou o pé. Um outro tiro pegou na cabeça, certinho.

Caiu como uma bailarina. De forma delicada, aquilo se estendeu, colocando a trouxa que ele carregou esse tempo todo pra frente. Ninguém entra, ninguém sai.

horas depois, a trouxa começou a se mexer. Depois começou a chorar. Eu na câmera.

O bicho trouxe um neném, cara. Um neném. O bicho carregou um neném por 3 dias. Pra gente cuidar. O neném novinho, lá, chorando. O chefe disse ‘deixa morrer’. Cabou meu turno, fui dormir e o neném chorando. Naquela altura do campeonato, ninguém entra, ninguém sai. É um trabalho de corno, cara.

Vai se alistar? Que que cê tá olhando na minha mesa, hein? Essa foto? Minha filha. O nome dela é Vitória. Quantos anos ela tem? Quatro. É, quatro anos. Grande ela, né? Todo mundo acha que ela tem cinco anos. Mas ela tem quatro, tá? Ela tem quatro.

MENÇÃO HONROSA: Margarina – Robisom Lima

Juntou as migalhas de sua vida, todas espalhadas sobre o balcão do bar. As chaves de casa, os poucos cigarros amassados, umas moedas, sua dignidade. Da porta olhou para a penumbra do estabelecimento, para dois ou três fregueses em situação de abandono moral. Sentiu simpatia por eles, aquela cumplicidade que só a culpa consegue sustentar.

Lá fora a luz foi uma surpresa terrível. Amanhecera enquanto revisitava suas dúvidas, procurando respostas no fundo dos copos. Tomara algumas cervejas, uma ou outra tequila e uma frágil decisão.

Voltou caminhando, sua casa a umas poucas quadras dali. Tirou as chaves do fundo do bolso e junto com o chaveiro, intrometida, veio a aliança. Um olho dourado, inquisidor, observando sua alma culpada enquanto refletia o brilho da manhã. Encararam-se por uma pequena eternidade. O anel voltou para o bolso.

Entrou com cautela, pé ante pé, ouvindo o silêncio da casa. Jogou os pertences na poltrona, a bolsa, o casaco, as certezas, caminhou em direção a cozinha. Precisava de algo para afogar o desconforto súbito na boca do estomago. Achou que fosse a ressaca, mas eram suas angustias abrindo caminho garganta acima.

Estendeu a mão para a geladeira mas interrompeu o movimento, como se o tempo estancasse a realidade. Na porta de aço escovado um pequeno imã prendia dois fragmentos de realidade. Na foto uma família. Dia de sol, duas jovens mulheres bem-sucedidas, felizes, uma garotinha entre elas. Logo abaixo o bilhete: “Linda, fui levar a Pequena para a escolinha. Vou fazer o bolo, vc traz a margarina? Ass: Sua Loira ♥

No bolso, a mão tremula encontrou a aliança, mas não as certezas todas, jogadas na sala de estar…

MENÇÃO HONROSA: Animal – Leandro Samora

Pousou o trabuco sobre a cadeira, com a ponta de metal escorada na parede da cabana. Fez isso antes de fechar a porta: com a nevasca, precisaria das duas mãos livres para empurrar e depois passar o ferrolho.

Quando o vento finalmente silenciou, deixando para trás apenas um rastro úmido sobre o tapete, foi um alívio, mas também um sinal para maus pensamentos. O escuro repentino.

Tirou as luvas, tateou, achou os fósforos e acendeu o lampião.

Dezenas de pares de olhos mortiços e vidrados o encararam, com o brilho da chama lhes emprestando alguma vida. O homem retirou o chapéu de pele e levou o lampião até a lareira. As sombras se afastavam dele conforme caminhava. O cervo o observava de lado. O urso sucumbia ao peso de suas botas. A raposa aquecia seus ombros.

A cabana estava aquecida com o grande fogo. A garrafa reluziu na prateleira. O líquido se agitou e refletiu na madeira. Rolha fora.

A faca saiu do cinto e repousou ao chão. Depois foi a vez das botas atravessarem a sala e irem bater na cadeira ao lado da porta, derrubando o trabuco com um estrondo. Conforme o volume da garrafa baixava, o calor se espalhava no corpo, do fígado às extremidades. As peles caíam feito a primeira neve, com calma. Pelagens diferentes ao chão. Logo o homem estava nu encarando os olhares que evitava. Presas altivas eternizadas num rugir sem som. Orgulhosos e mortos senhores. O homem desviou o olhar e chorou sua vergonha até adormecer.

Não durou. O uivo o despertou. Estava próximo, muito próximo. A agressividade e o perigo. Levantou-se, trôpego, apanhando as peles. Logo era mais animal que homem novamente. Precisava sobreviver mais uma noite.

Uma mão foi ao trabuco e outra ao ferrolho.


[DICA DE ESCRITA] Como estruturar sua história – Método dos Sete Pontos



[DICA DE ESCRITA] Como estruturar sua história – Método dos Sete Pontos

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Artigo originalmente postado no blog do autor.

Ainda que você escreva sem planejar sua história de antemão, ou se esmiúça os detalhes antes de começar, é inegável a importância de estruturar seu enredo. Muitos o fazem, inclusive, inconscientemente, aplicando técnicas enquanto colocam as ideias no papel. Isso acontece porque estamos acostumados a ler histórias com elementos universais (e.g. heróis, vilões, mentores), e somos condicionados a pensar de uma maneira específica.

É inegável a importância de estruturar seu enredo.

Porém, quem pretende organizar ideias em forma de esboço (o famoso outline), seja para evitar trabalho de reescrita ou para testar conceitos e personagens, pode utilizar diversas técnicas conhecidas para estruturar o enredo.

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A Jornada do Herói. Fonte: Perplexidade Silêncio

Hoje tentarei descrever uma técnica menos popular, mas que tem me ajudado bastante. Ela foi delineada pelo escritor norte-americano Dan Wells e expandida por outros autores. Aqui, dou minha própria interpretação desse método, que se chama…

Método dos Sete Pontos de Enredo

O Método dos Sete Pontos consiste em identificar sete momentos-chave na narrativa. Estes momentos são marcos que farão sua história avançar, além de estabelecer os conflitos que permeiam seus personagens. Eles podem variar desde cenas inteiras, capítulos, diálogos ou até um simples parágrafo.

Os pontos são (nomes adaptados por mim):

  1. Gancho
  2. Chamado
  3. Catalisador
  4. Espelho
  5. Crise
  6. Clímax
  7. Resolução

Antes de começarmos, lembrem-se da única regrinha básica da escrita: não existem regras. O que descrevo a seguir são meramente dicas que me ajudam a organizar as ideias. Não as siga à risca. Modifique-as e ignore-as à vontade. Escrever um bom texto não significa seguir regras, mas saber o que funciona para você.

Sem mais delongas, vamos ao primeiro ponto:

  1. Gancho

O que é o gancho?

O gancho é o estímulo que fará seu leitor pensar: e agora, o que acontece? Ele é o motivo que o fará continuar lendo além das páginas iniciais. O gancho pode ser um(a):

  • reviravolta
  • cena chocante
  • personagem cativante
  • ideia intrigante
  • o que você quiser que ele seja

Qual a função do gancho?

É tão simples quanto parece. O gancho serve para fisgar seu leitor. Para isso, ele precisa ser grande/importante/chocante o suficiente para fazê-lo imaginar o que acontece na próxima página. E na próxima. E na próxima.

Quando o gancho deve aparecer?

O mais rápido possível. Ele pode, inclusive, aparecer na primeira linha, mas é importante que isso aconteça nas primeiras páginas da sua história. Se seu gancho não surgir logo, os leitores podem perder interesse. Se um editor ler sua história, ele certamente irá procurar por algo que fisgue sua atenção nas primeiras páginas. Caso ele(a) não encontre, provavelmente deixará seu manuscrito de lado. Fisgar seu leitor nas primeiras linhas é crucial.

Fisgar seu leitor nas primeiras linhas é crucial.

O que NÃO fazer com o gancho?

O gancho não é necessariamente o acontecimento que conduz sua trama (veremos mais sobre isso depois no Chamado), ele serve apenas para criar interesse na história.

Se sua história é sobre um detetive que investiga um assassinato, seu gancho pode ser a própria cena do crime, um flashback do passado do detetive em que ele vê a mãe ser morta, ou até mesmo uma cena do fim do livro em que ele está à beira da morte, encurralado pelo assassino (mas sem deixar claro ao leitor quem é o crimonoso). Nesse último caso, você voltaria no tempo para contar o início da trama, deixando o leitor ávido por saber como o detetive foi parar naquela situação.

Muitas vezes, o gancho pode vir na forma de um prólogo (ou um Capítulo 1 que tem função de prólogo). Muitos autores e editores não recomendam o uso de prólogo. O que eles realmente querem dizer é: não crie prólogos que confundam seu leitor ou que os mate de tédio. Vamos entender dois tipos de prólogo muito comuns: Prólogo do Monstro de Gelo e Prólogo In Media Res.

Prólogo do Monstro de Gelo

Prólogo do Monstro de Gelo é uma referência ao prólogo do livro Guerra de Tronos, de George R. R. Martin (esse mesmo, que deu origem ao seriado Game of Thrones).

O livro de Martin é enorme, e a magia só aparece realmente depois de centenas de páginas. Para tal, Martin incluiu um prólogo que, logo de cara, mostra um gigante monstro de gelo, usando isso como promessa de que o livro terá magia e criaturas fantásticas mais tarde. Isso torna a leitura dos capítulos seguintes mais instigantes, pois o leitor sabe que, em algum momento do livro, os personagens irão se deparar com perigos sobrenaturais.

Prólogo In Media Res

In Media Res vem do latim no meio das coisas. Essa é uma técnica literária onde a narrativa começa no meio da história, em vez de no início. Isso é usado para (você acertou!) fisgar o leitor.

Para se contar uma história, é preciso explicar, explicar e explicar. Harry Potter é um garoto que vive debaixo da escada… Frodo é um hobbit que vive numa vila pacata… Luke é um jovem que vive isolado com os tios… Normalmente, essas primeiras cenas são monótonas, se você não conhece os personagens envolvidos. Para isso, algumas histórias começam por uma cena empolgante do meio da trama e depois retrocedem ao início, criando, assim, um ar de mistério.

Exemplos de Ganchos

  • Peter Pan: o Gancho (não, não é o Capitão) está logo na primeira frase: Todas as pessoas crescem, menos uma.
    • Quem é essa pessoa que não cresce? Por que não?
  • Senhor dos Anéis: um mago poderoso pede a ajuda de um jovem e pacato hobbit para uma aventura.
    • Que habilidades esse inofensivo hobbit tem a oferecer? Que perigos eles encontrarão no caminho?
  • Réquiem para a Liberdade (livro de minha autoria): Um ex-escravo é capturado por criminosos, e escapa com a ajuda de uma marca hedionda que carrega no peito.
    • Qual o segredo por trás dessa misteriosa marca? Quem fez isso com ele? Como ele foi parar nas mãos desses criminosos?

Ganchos “Prólogo do monstro Gigante”

  • Harry Potter: Dois bruxos abandonam um bebê misterioso na porta de uma casa no meio da noite. (logo de início fica evidente que há magia no mundo)
    • O que há de tão especial nesse bebê? Que poderes esses bruxos possuem?
  • Star Wars: um poderoso vilão mascarado usa habilidades sobrenaturais e captura uma princesa.
    • Quem está por trás da máscara desse vilão? Qual a fonte do seu poder? Quem salvará a princesa?

Ganchos com “Prólogo In Media Res”

  • A Odisseia: Atena manda Telêmaco buscar seu pai Odisseu, que está sumido há dez anos. A história, então, começa a contar o que Odisseu tem feito nesses anos.

 

  1. O Chamado

Agora que você fisgou a atenção do leitor, você pode seguir o curso normal da narrativa. Isso não é desculpa, entretanto, para frustar o leitor. Você ainda terá que manter suspense e/ou conflito. Após o gancho você tem um espaço para respirar e apresentar seus personagens. Porém, cedo ou tarde, você terá que estabelecer o Chamado – é ele quem irá forçar seu(s) protagonista(s) a seguir sua jornada pelo resto da trama.

O que é o chamado?

O chamado é onde se inicia a jornada. É lá que você define as motivações e circunstâncias que farão sua história seguir em frente. Depois do chamado, não há mais volta.

Quando o chamado deve aparecer?

A primeira regra da escrita é que não há regras. O chamado pode acontecer em qualquer momento da narrativa, como pode não acontecer de jeito nenhum. Entretanto, em narrativas modernas de ficção, vemos que o chamado acontece (quando acontece) no começo da trama, de preferência antes de 1/4 da história (se seu livro tem 200 páginas, isso significa ter seu chamado antes da página 50).

Como introduzir o chamado?

Conflito. Sem conflito não há trama. Um chamado nada mais é que uma escolha que o protagonista precisa fazer para iniciar sua jornada. Ninguém quer ler sobre um personagem que passa a história vivendo sua vida pacata, sem surpresas. Sua função, como escritor, é virar a história de cabeça pra baixo, de forma que seu personagem entre em conflito, seja com outro personagem, com a sociedade ou até com ele mesmo.

É nesse momento que sua história se transforma e realmente começa. Tudo que acontece antes do chamado é a base para que a trama se inicie.

Sem conflito não há trama.

Exemplos de Chamado

  • Jogos Vorazes: A irmã mais nova de Katniss é escolhida para participar dos jogos, e Katniss se voluntaria para ir no lugar dela.
  • Senhor dos Anéis: Gandalf conta a Frodo que as forças do mal sabem que ele possui o Um Anel, e que eles devem deixar o Condado imediatamente.
  • Réquiem para a Liberdade: Marko chega à Ravina e confronta o tirano Dom (a partir de agora não exemplificarei mais meu livro, para evitar spoilers).
  • Harry Potter: Harry descobre que é um bruxo e que irá estudar na Escola de Magia de Hogwarts.
  • Star Wars: Luke descobre que seus tios estão mortos e resolve se juntar a Obi-Wan Kenobi.

 

  1. O Catalisador

Agora que passamos pelo Chamado e partimos numa jornada sem volta, precisamos manter nossos personagens sob pressão (a vida de um protagonista não é fácil). Para isso, recorremos a um Catalisador.

O que é o Catalisador?

O Catalisador serve para impulsionar seu personagem a tomar decisões e para demonstrar as terríveis forças contra as quais ele está batalhando. De certa forma, ele serve para acelerar sua história.

Quando o Catalisador deve aparecer?

Em algum ponto entre o Chamado e o Espelho (veremos mais sobre o Espelho a seguir). Logo após o Chamado, seus personagens ainda estão descobrindo sua jornada, fazendo aliados, enfrentando provações e/ou desvendando mistérios. Em algum momento, algo acontecerá para aumentar o senso de urgência e a necessidade de se tomar uma ação. Adicionalmente, sua história pode possuir mais de um catalisador, a seu critério.

Como introduzir o Catalisador?

Novamente, a resposta é: conflito. O Catalisador pode ser o momento perfeito para introduzir um vilão, raptar um aliado, descobrir um esconderijo ou revelar um traidor. O catalisador deve conflitar o seu personagem, forçando ele a reagir e tomar decisões importantes.

Exemplos de Catalisadores

  • O Iluminado: Danny começa a ter alucinações e a perceber atividades sobrenaturais pela primeira vez.
  • Senhor dos Anéis: Frodo e seus companheiros são atacados pelos cavaleiros negros. Frodo é esfaqueado.
  • Harry Potter: Um trasgo ataca Hogwarts.
  • Star Wars: Os stormtroopers atacam a Millennium Falcon enquanto Luke e Ben Kenobi tentam alcançar a Aliança Rebelde.

 

  1. O Espelho

Em questão de estrutura, o Espelho é um dos três acontecimentos principais que conectam sua história (os outros dois sendo o Chamado e o Clímax). São como estacas que sustentam uma tenda. É no Espelho que o seu protagonista irá encontrar sua verdadeira motivação (ou perdê-la), e onde o caminho realmente parece não ter volta (ou não ter futuro). Fazendo uma analogia com o próprio nome, é como se o protagonista se olhasse no espelho e se perguntasse: o que foi que eu fiz?

O que é o Espelho?

O Espelho pode ser o momento em que algo impactante acontece, fazendo seu personagem passar de reativo a ativo, deixando de correr dos problemas e começando a resolvê-los.

No entanto, levar essa definição ao pé da letra pode ser perigoso. Se você mantiver seu protagonista totalmente reativo na primeira metade da história, possivelmente os leitores não irão simpatizar com ele. Esse é uma das grandes críticas, por exemplo, a Harry Potter. Muitos alegam que Harry é um personagem majoritariamente reativo, e que só consegue êxito graças a seus aliados.

Uma forma mais abrangente de pensar no Espelho é como um momento em que o personagem precisa refletir a consequência das ações que tem tomado, e no que ele pode fazer para mudar seu futuro.

Onde vai o Espelho?

Se você chutou “na metade da história”, você acertou. Muitos escritores sofrem por não conseguir deixar o meio da trama interessante, então é essencial ter algo importante que muda o rumo da história, mantendo o leitor interessado até o grand finale.

Uma técnica útil para se usar nesse momento é a de pensar num final e criar uma situação no meio que faça com que aquele final pareça impossível de se alcançar. E então descobrir uma maneira de torná-lo possível. Por exemplo, se seu protagonista precisa alcançar o topo da montanha até o fim da história, exploda a montanha na metade e descubra outra maneira de levá-lo ao objetivo. Isso ajuda a manter o suspense.

É essencial ter algo importante que muda o rumo da história, mantendo o leitor interessado até o grand finale.

Outra vez, a principal regra é que não há regras, então você não precisa obrigatoriamente posicionar seu Espelho na página 100 de seu livro de 200 páginas. A tama irá ditar quando o Espelho acontece.

Exemplos do Espelho

  • 1984: Após descobrir como o Partido manipula a população, Winston decide investigar um misterioso grupo de resistência.
  • Senhor dos Anéis: O conselho se reúne em Rivendell e, após diversos desentendimentos. Frodo decide ele mesmo levar o Um Anel a Mordor.
  • Harry Potter: Harry se olha no Espelho de Ojesed (coincidência?) e decide honrar a morte de seus pais.
  • Star Wars: Luke e seus companheiros são levados à Estrela da Morte, descobrem que Leia está sendo mantida prisioneira e decidem resgatá-la.

 

  1. Crise

Agora que já passamos do Espelho e seu personagem já decidiu o que precisa fazer para resolver seus problemas, está na hora de entrarmos em Crise. Assim como o Catalisador, a Crise aplica pressão em seus personagens e os força a tomar decisões, movendo a história adiante. De fato, da mesma forma que o catalisador impele seus personagens a continuar após o início da jornada, a crise os mantém nos trilhos rumo ao conflito final.

Uma história sem Crises

Se você retira os momentos de crise (e, igualmente, catalisadores) de sua história, o que sobra? Se Frodo não passasse por momentos de perigo no caminho para Mordor, qual seria o propósito da história? Crises são momentos que, além de aumentar o senso de urgência, permitem ao autor demonstrar o perigo que seus personagens sofrem em sua jornada.

Exemplos de Crise

  • Batman Begins: Ra`s Al Ghul queima a mansão Wayne e deixa Bruce à beira da morte.
  • Senhor dos Anéis: Gandalf cai no abismo ao enfrentar o Balrog.
  • Harry Potter: Harry vê Voldemort sugar o sangue de unicórnio e quase é morto.
  • Star Wars: Os stormtroopers atacam os heróis enquanto eles tentam fugir da Estrela da Morte com a princesa Leia.

 

  1. Clímax

O Clímax, como vocês já devem imaginar, é o momento em que tudo se conecta. É o lampejo, inspiração ou aquele último pedaço de informação que seu personagem precisava para derrotar seus inimigos. Tudo que acontece a partir daí leva a história ao seu final.

O Que é o Clímax?

O Clímax costuma ser o confronto final entre heróis e vilões, o bem e o mal, protagonistas e antagonistas. Sua história deve culminar para esse momento. Inclusive, no Clímax, sua história deverá ter grande impacto emocional em seus leitores.

Onde vai o Clímax?

Há uma confusão natural entre o clímax e a resolução de sua história. De fato, estes dois pontos estão iterligados. Um leva ao outro. O clímax começa no momento em que o protagonista tem em suas mãos o poder para “vencer a batalha” e termina quando tudo está prestes a se resolver.

No Clímax, sua história deverá ter grande impacto emocional em seus leitores.

Exemplos de Clímax

  • O Caso dos Dez Negrinhos: Oito já morreram e apenas dois restam. Cada um dos dois sobreviventes sabe que ele próprio não é culpado pelas mortes e os dois se confrontam.
  • Senhor dos Anéis: Boromir tenta roubar o Um Anel de Frodo, fazendo o hobbit perceber o poder do anel em corromper seus companheiros. Ele, então, percebe que terá de enfrentar o desafio sozinho.
  • Harry Potter: Ao se olhar no espelho de Ojesed, percebe que, como seus motivos são puros, ele é o único que pode possuir a pedra filosofal.
  • Star Wars: Luke descobre que tem a Força, e terá que usá-la para destruir a Estrela da Morte.

 

  1. Resolução

Por fim, o fim. Antes de definirmos como nossa história vai acabar, temos que levar alguns pontos importantes em consideração:

  • Qual é o conflito principal?
  • Como esse conflito afeta seus personagens?

A resolução de sua trama deve, como boa prática, ter uma sinergia com seu conflito principal. Se você conta uma história sobre redenção, é uma boa ideia que seu personagem possa se redimir no fim.

Falando em personagem, seu protagonista (e possivelmente os secundários) não será o mesmo que era no início da história. Certamente ele enfrentou perigos e aprendeu lições. Se ele era egoísta, talvez tenha aprendido o poder da amizade. Se começou ingênuo, talvez descubra como impor sua própria vontade. O segredo sobre o crescimento de seu personagem está nas provações e crises da jornada. Cada um dos pontos discutidos (Gancho, Chamado, Catalisador, Espelho, Crise e Clímax, etc) irá mudá-lo de maneira que, no final, ele seja uma pessoa (ou animal, planta, o que seja) mudada. Para o bem ou para o mal.

Exemplos de Resolução

  • Jogos Vorazes: Katniss desafia os juízes dos Jogos e sobrevive. Ela agora tem uma visão distinta do governo controlador.
  • Senhor dos Anéis: A Sociedade se separa. Frodo resolve seguir seu caminho e destruir o Um Anel, custe o que custar.
  • Harry Potter: Harry derrota Voldermot. Ele agora sabe que, enquanto viver, Voldemort pode retornar para conseguir sua vingança.
  • Star Wars: A Aliança destrói a Estrela da Morte. Com o conhecimento da Força, Luke resolve treinar para destruir o Império.

Finalmente, vale a pena estruturar?

A escrita é uma arte muito peculiar.

Para efeito de comparação, analisemos outras áreas criativas como exemplo.

  • Para ser músico, é necessário, no mínimo, saber as notas e os acordes musicais. Muitos iniciantes aprendem sua técnica de músicos experientes. Para ingressar numa orquestra, é preciso estudar durante anos.
  • Poucos são os cineastas que não seguem uma educação formal na área de direção cinematográfica.
  • O mesmo vale para outras áreas como pintura, dança, entre outros. Técnica é tão essencial quanto expressão artística.

Por que, então, seria diferente para a escrita? Muitos afirmam que não é necessário estudar ou aprender técnicas de escrita, pois elas limitam a criatividade do escritor. Muito pelo contrário, elas existem para canalizar as ideias do autor. Obviamente, nem tudo funciona para todos os escritores. Cabe a cada um identificar as técnicas que os ajudem a guiar sua escrita.

Essa funcionou (e funciona) para mim. =)

Para saber mais sobre o Método dos Sete Pontos (em inglês), acesse:

http://theselfpublishingtoolkit.com/seven-point-story-structure/

http://www.writerstoauthors.com/how-to-outline-a-novel-seven-point-story-structure/

https://www.keepwriting.com/tsc/magnificent7plotpoints.htm

http://csidemedia.com/gryphonclerks/2012/12/16/dan-wells-seven-point-story-structure/